O desafio dos indígenas em todo o Brasil.

O desafio dos indígenas em todo o Brasil.

10 minutos de leitura

Compartilhamos com vocês uma entrevista exclusiva com Rosa Gauditano, fotógrafa que há mais de 20 anos acompanha a vida dos indígenas em todo o Brasil. 

Fizemos uma entrevista com ela porque entendemos a importância e contribuição do indígena para a cultura brasileira. Conversamos com a fotógrafa sobre a atual situação dos índios e como eles contribuem para a manutenção da própria natureza. Com isso, desejamos trazer uma reflexão sobre a relação que, nós brasileiros, temos com os nossos próprios nativos.

A senhora tem um trabalho muito lindo de fotografar a cultura indígena. Ao longo das últimas décadas, não apenas fotografou, mas observou todos os seus costumes, o modo de viver de cada cultura. Então, a senhora conhece profundamente a relação do índio com a natureza. Pedimos para explicar para nós, por favor, como a existência dos indígenas ajuda na manutenção dos próprios biomas?

Os indígenas cuidam diretamente dos próprios biomas das florestas e Cerrado porque conhecem profundamente a sua região onde habitam, por séculos.

Os conhecimentos são transmitidos por gerações e possibilitam conhecerem profundamente as árvores, animais, nascentes de água, rios, peixes, remédios e tudo que a floresta e o Cerrado oferecem para uma vida sadia e livre. Por isso, cuidam de seu espaço, caçando, pescando e colhendo as frutas o suficiente para se alimentarem e viverem plenamente.

Eles não têm a cultura do acúmulo de bens, enriquecimento, ao contrário dividem tudo que conseguem na própria comunidade. Os indígenas vivem em equilíbrio ecológico com seu habitat, cuidam das florestas e defendem seu meio ambiente evitando que os invasores não indígenas cortem as árvores, queimem a floresta e façam mineração nas suas áreas.

Como o projeto de lei do marco temporal pode representar uma ameaça aos povos indígenas no Brasil?

A tese do marco temporal é uma tentativa dos advogados dos fazendeiros de reverter uma situação a seu favor. Ela tem sido utilizada para tentar provar que se os indígenas não estivessem em suas terras ancestrais em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da nova Constituição Brasileira, eles não teriam mais direitos de viver nelas.

Depois da Constituição muitos povos retomaram antigas terras tradicionais das quais foram expulsos por fazendeiros e posseiros e isso gerou uma grande disputa. Por exemplo, no caso dos Guarani Kaiowa, do Mato Grosso do Sul, suas terras foram doadas aos fazendeiros na época da Ditadura (1964-1985), mesmo com os indígenas morando dentro das terras. Os fazendeiros, desde então, expulsaram os indígenas e um grande litígio foi formado nessa região. Entre os donos de fazendas existem muitas pessoas influentes que sempre tiveram apoio dos diferentes governos.

Eloy Terena, coordenador Jurídico da Associação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) relata  o caso da comunidade indígena Guyraroká do povo Guarani Kaiowá votado no STF este mês de abril. Ele explica que “o processo é paradigmático, pois retrata de forma inusitada, a história de um povo que foi expulso de sua terra ancestral, impactado pelo colonialismo interno e pela frente de expansão pastoril. “

Eloy Terena relata como em 2014 os indígenas foram surpreendidos pela decisão da 2a turma do STF que acatou um recurso judicial do fazendeiro e declarou anulado o processo demarcatório. Este é um caso clássico de processo que tramitou na justiça sem a participação da comunidade indígena.”

Numa decisão histórica, em 9 de abril de 2021 o STF declarou o território  Guyraroká pertencente aos Guarani Kaiowá !

#MarcoTemporalNão

Como a senhora vê as políticas públicas (ou a falta delas) do Governo Bolsonaro para o meio ambiente?

Bolsonaro, na sua campanha para presidência, já falou o que iria fazer:

nenhum centímetro a mais de demarcação de terras para os povos indígenas, mineração nas terras indígenas com a desculpa de fazer o desenvolvimento do Brasil e isso está diretamente ligado ao meio ambiente pois são os indígenas os maiores defensores das florestas e cerrado.

Bolsonaro foi eleito com o apoio dos fazendeiros do agronegócio que querem ampliar suas áreas de pastagem e plantação de soja e milho transgênicos para exportação e pessoas ligadas à mineração ilegal e grandes mineradoras que têm interesse em nossas riquezas.

O presidente apoia os posseiros e fazendeiros e por isso estes colocam fogo nas florestas e biomas porque acham que nada acontecerá com eles, pois o ministro Ricardo Salles do Ministério do Meio Ambiente desmontou o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA) que era responsável pelas multas e repressão às pessoas que desrespeitassem o meio ambiente. Ao desmontar o Ministério do Meio Ambiente, ele facilitou as queimadas ao apoiar posseiros e fazendeiros a aumentarem suas terras para plantações e gado.

Em 2019 essa gente colocou fogo na floresta num episódio que ficou conhecido internacionalmente como o “dia do fogo”. Em 2020 repetiram a dose. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Impe) o desmatamento em 2020, aumentou em 34% a mais do que nos últimos 12 meses na floresta Amazônica. Foram desmatados 9,2 mil km2 de floresta nos últimos 12 meses (área 6 x maior do que o município de São Paulo) comparado com 6,8 km2 entre agosto 2018 e julho 2019.

Também o Pantanal perdeu 40% de seu bioma em 2020. O número de focos de incêndio em 2018 foram 1.180 enquanto que em 2020 foram 3.415, um aumento de 189,4%. A área devastada já chega a ser superior a um milhão de hectares, que corresponde a 1 bilhão de m2.

indio kayapo com macaco

Complementando a pergunta anterior, tivemos protestos em diversas cidades do mundo em relação às queimadas na Amazônia. Como a senhora observa esse movimento aqui no Brasil?

Acho que a grande parte das pessoas no Brasil não se importam muito com o meio ambiente pois não aprenderam como ele é importante para a espécie humana e não entendem a gravidade da situação.

Bolsonaro foi eleito por 30% da população que prefere o dinheiro do gado e colheitas ao meio ambiente e a outra parte não tem informações suficientes para projetar o que será o Brasil no futuro, depois que este governo extinguir todos os nossos recursos naturais.

O movimento de protesto contra as queimadas é muito pequeno, comparado ao estrago que está trazendo. A população protestou na internet por causa da pandemia. A grande mídia nacional mostra os fatos mas não dão os nomes das fazendas que puseram fogo nos biomas, que foi constatado pelos mapas espaciais e tudo parece virar “pizza “.

Existem alguns grupos de ONGs ambientalistas que protestam e principalmente a Associação dos Povos Indígenas (APIB).  Eles estão sendo perseguidos pelo governo federal que não reconhece a associação em defesa dos indígenas. A APIB tem realizado uma campanha contra o desmatamento, aqui e principalmente na Europa, desde o ano passado, o que tem alertado os países do bloco a conversarem sobre suspenderem importações do Brasil. A APIB é muito respeitada por vários governantes como o presidente francês e primeiro ministro holandês, mas ainda é muito pequena a pressão contra o governo federal brasileiro.

Como analisa a ajuda dada aos povos indígenas durante a pandemia, que, por sinal, ainda não terminou?

O governo Bolsonaro não visa um bem-estar da saúde da população brasileira e sim aumentar a economia, mas nem isso estão fazendo, pois temos o maior desemprego e empresas médias e pequenas fechadas nestes últimos anos.

Ao ser eleito, Bolsonaro colocou os ministros para desmontarem tudo que havia de suporte social para a manutenção da população brasileira, incluindo os povos indígenas e quilombolas, na área de saúde com a desculpa de cortar verbas.

Como todos sabem, o governo Bolsonaro ajudou o aumento do Coronavírus ao dizer que a pandemia era apenas uma gripezinha.

Na 1a semana de governo tirou a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) do Ministério da Justiça e passou para a Damares Alves, pastora evangélica e ministra da Mulher, Família e dos Direitos Humanos, para que ela pudesse agir livremente nas terras indígenas levando evangélicos para catequizarem os indígenas desmontando suas crenças e culturas ancestrais e gerenciando a Secretaria de Saúde Indígena (SESAI).

Depois de muita luta, os indígenas conseguiram passar de novo a FUNAI para o Ministério da Justiça, mas ela foi desmontada e no lugar de seus funcionários entraram defensores dos ruralistas. A FUNAI agora trabalha literalmente contra os indígenas e a SESAI, ligada à FUNAI, ficou também sem gerenciamento técnico que garantisse a saúde indígena.

A ajuda do governo para a pandemia entre os indígenas só foi realizada depois de muitas mortes na Amazônia por falta de assistência, informações e contaminação direta de equipes de saúde mal orientadas da Secretaria de saúde Indígena (SESAI).

Quem pressionou o governo contra as mortes foi a APIB que fez pressão em Brasília e inúmeras campanhas na imprensa nacional e internacional para levantar fundos para assistência aos indígenas e conseguiu que o governo fosse atender povos com maiores problemas como os Yanomami, depois que o Coronavírus já tinha se alastrado pelo Amazonas em muitas aldeias e matado muita gente.

O governo chegou tarde e enviou Cloroquina e outros remédios ineficazes contra o Coronavírus e militares que não estavam acostumadas a atender os indígenas nem falar a língua deles. Foi uma demonstração do trabalho do exército, mas não trouxe muitos benefícios para os povos indígenas, que foram salvos mesmo com as campanhas da APIB, ONGs, associações indígenas apoiadas pela população em geral A campanha SOS Xavante movimentou doações de todas as partes do Brasil. Foram comprados 55 respiradores, distribuídos junto com material de EPIS para as 9 terras Xavante e cestas básicas para os indígenas doentes. Foram levantados com doações, R$5 milhoes de reais para os atendimentos médicos e trabalhos nas aldeias. Eles contrataram equipes de ONGs de saúde, chegando antes nas aldeias do que pessoal do exército. Isto fez toda a diferença ajudando nas informações para proteção das pessoas e  não dispersão do contágio do coronavirus.

Ainda sobre a ajuda aos povos indígenas, gostaríamos que comentasse sobre a violência contra os índios no Brasil. Por que existe tão pouco caso contra os indígenas brasileiros?

A violência do governo contra os indígenas é porque eles vivem dentro das florestas e terras que o governo quer privatizar e explorar. O racismo existe em toda parte e os indígenas sempre foram tratados como povos sem cultura e diferentes do resto da população brasileira.

Vale a pena ver os dados do relatório do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), órgão da igreja católica progressista. Segundo o Relatório de Violência Contra os Povos Indígenas do Brasil, publicado anualmente pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), em 2019 foram:

  • 544 ocorrências contra os indígenas:
  • Sendo 113 registros de indígenas assassinados.   
  • 256 casos de “invasões possessórias, exploração ilegal de recursos e danos ao patrimônio” em pelo menos 151 terras indígenas, de 143 povos, em 23 estados.
  • Um aumento de 134,9% dos casos relacionados às invasões em comparação com os registrados em 2018.

A senhora já acompanha algumas culturas indígenas há décadas. Então, viu aldeias inteiras sendo transformadas, ao longo dos anos, principalmente na área da educação. A senhora pode explicar para a gente quais as principais transformações que acompanhou? 

Entre 2003 e 2013 os povos indígenas receberam apoio para formarem escolas e atendimento de saúde que eram e ainda são quase inexistentes em muitas áreas indígenas no Brasil.

Um caso que acompanho de perto é o da Terra Indígena Xavante de Pimentel Barbosa: em 1991 não havia escola nem posto de saúde nessa comunidade, de umas 300 pessoas. Nesse período, uma escola com 10 classes foi construída com uma sala de computação e um posto de saúde também. Em 2015, quando estive lá, já eram mais de 500 crianças cursando os 3 períodos, 15 professores Xavante bilíngues lecionando na TI Pimentel Barbosa e um bom posto de saúde com carro próprio, médico, motorista, 1 enfermeiro e 2 assistentes de saúde Xavante.

Melhorias como esta aconteceram em várias terras indígenas no Brasil durante esta época.

Os povos indígenas têm muito a nos ensinar. Mas, queremos destacar aqui algo nas culturas indígenas que não é nada comum para as pessoas das cidades grandes: o senso de comunidade. Os índios dançam e cantam quando alguém está doente, quando precisam mudar a vibração de um lugar para que todos possam ficar bem. Comente, por favor.

As comunidades acreditam na cura pela energia e meio ambiente. Acreditam no equilíbrio entre a natureza e as forças cósmicas. O fato de viverem em comunidade, não acumularem bens, terem respeito pelas crianças e mais velhos, se ajudarem mutuamente, tudo isso está sendo perdido nas cidades grandes. As danças e cantos nos rituais trazem alegria e levam para longe as más energias. Temos muito a aprender. 

Fazendo conexão com a pergunta anterior, como você vê a importância dos rituais e sabedoria indígena para os dias de hoje e como nós, podemos absorver tais conhecimento em nosso dia a dia? 

Se aprendêssemos mais os indígenas seríamos o país mais desenvolvido e feliz do mundo, respeitando a natureza e vivendo em equilíbrio com ela. O Brasil é um dos países mais ricos do mundo em recursos naturais, mas não sabemos aproveitá-los, aqui o governo só pensa no lucro.

Os rituais fazem a conexão com as forças desconhecidas, trazem a consciência, a meditação, a concentração, a força física, disseminam a sabedoria entre os mais novos, que aprendem a cada ritual segredos ancestrais, registram histórias e conhecimentos atuais para as futuras gerações.

A educação e a cultura precisam ser valorizadas para que possamos respeitar os diferentes.

Quais as contribuições mais essenciais dos povos indígenas para a cultura brasileira?

A alegria, o bom humor, a vida em comunidade, a tranquilidade, a ajuda ao próximo, a comida (mandioca, milho, farinha, frutas etc), remédios (andiroba, copaíba, etc) além da língua, os costumes e objetos (danças, musicas, histórias, banho, redes, cestas, tipiti, peneiras, instrumentos musicais), a nossa boa índole e os conhecimentos ancestrais sobre a natureza.


Conheça mais o trabalho de Rosa Guaditano em https://www.rosagauditano.com.br/

Site do CIMI, citado na entrevista:

O projeto de lei do Marco Temporal:

https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1199272

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