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Conheça: Carolina de Jesus

Carolina Maria de Jesus, era autora brasileira, considerada uma das primeiras e mais destacadas escritoras negras do País, tendo seu livro best seller autobiográfico, “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada” como referência na literatura periférica brasileira até hoje.

Era múltipla, única e revolucionária. Sua trajetória no mundo literário inspira iniciativas em vários campos do pensamento, da arte e do político. Uma mulher negra que rompeu diversas barreiras e criou possibilidades de existência através das palavras.


Conheça a história de vida de uma das primeiras escritoras negras do Brasil, que revolucionou a trajetória da literatura periférica, servindo de inspiração para mulheres que fazem da escrita seu maior ato de resistência. 

Carolina Maria de Jesus nasceu em 14 de março de 1914, na cidade de Sacramento, em Minas Gerais, numa comunidade rural, de pais analfabetos. 

Era filha ilegítima de um homem casado e foi maltratada durante toda sua infância. Mas, aos sete anos de idade, sua mãe obrigou com que frequentasse a escola, depois que a esposa de um rico fazendeiro decidiu pagar seus estudos, porém ela teve de interromper o curso no segundo ano, já tendo conseguido aprender a ler e a escrever e desenvolvido o gosto pela leitura.


Favela do Canindé: morada e cenário literário

Com 33 anos, Carolina migra para a metrópole de São Paulo, indo parar na Favela do Canindé, onde construiu sua própria casa, usando madeira, lata, papelão e qualquer material que pudesse encontrar, saindo todas as noites para coletar papel, a fim de conseguir dinheiro para sustentar a família.

Desempregada e grávida, num momento em que surgiam na cidade as primeiras favelas, cujo contingente de moradores estava em torno de cinquenta mil, Carolina consegue emprego na casa do notório cardiologista Euryclides de Jesus Zerbini, médico precursor da cirurgia de coração no Brasil, o que permitiu com que ela pudesse ler os livros de sua biblioteca nos dias de folga. Em 1948, ela da à luz ao seu primeiro filho, João José. Tendo ainda mais dois filhos: José Carlos e Vera Eunice, nascidos em 1949 e 1953 respectivamente.

Ao mesmo tempo em que trabalhava como catadora, registrava o cotidiano da favela onde morava nos cadernos que encontrava no lixo, ao que somavam mais de vinte. Em um destes cadernos, um diário que havia começado em 1955, daria origem a seu livro mais famoso, Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, publicado em 1960.


O cotidiano impresso nas páginas de um livro

Sonhando em ser escritora, Carolina foi até a redação do jornal Folha da Manhã com um poema que escreveu em louvor a Getúlio Vargas. No dia 24 de fevereiro, o seu poema e a sua foto são publicados no jornal e Carolina acabou sendo apelidada de “A Poetisa Negra”.

Em 1958, o repórter do jornal Folha da Noite, Audálio Dantas, foi designado para fazer uma reportagem sobre a favela do Canindé e Carolina lhe mostrou o seu diário, surpreendendo o repórter que mostrou seus escritos para a repartição que decidiram por publicar seu material.

Com uma tiragem inicial de dez mil exemplares, Quarto de Despejo se esgotou em uma semana. Desde sua publicação, a obra vendeu mais de um milhão de exemplares e foi traduzida para catorze línguas, tornando-se um dos livros brasileiros mais conhecidos no exterior. 

Depois da publicação, Carolina teve de lidar com a raiva e inveja de seus vizinhos, que a acusaram de ter colocado suas vidas no livro sem autorização. A autora relatou que muitos dos moradores da favela chegaram a jogar nela e em seus três filhos, os conteúdos de seus penicos. 

Mas a escritora definia a favela como “tétrica”, “recanto dos vencidos” e “depósito dos incultos que não sabem contar nem o dinheiro da esmola”.

O professor da USP Ricardo Alexino Ferreira caracterizou a escrita de Carolina como “direta, nua e crua, mas, ao mesmo tempo, suave”.

Após o lançamento, mais três edições foram impressas, com um total de cem mil exemplares vendidos.


Alcançando o estrangeiro

Dois anos depois, Quarto de Despejo foi publicado nos Estados Unidos pela editora E. P. Dutton com o título Child of the Dark. No ano seguinte, como parte da coleção Mentor, a tradução ganhou uma edição de bolso, publicada primeiro pela New American Library, depois pela Penguin USA. 

Segundo o autor Robert Levine, somente das vendas desta edição, que totalizaram mais de trezentas mil cópias nos EUA, Carolina e sua família deveriam ter recebido, pelo contrato original, mais de cento e cinquenta mil dólares. Contudo, não foi encontrado indício algum de que ela tenha recebido sequer uma pequena parte disto.

Já em março de 1961, uma reportagem afirmou que a publicação de Quarto de Despejo havia rendido à Carolina seis milhões de cruzeiros em direitos autorais, contudo a quantia exata variava, de acordo com a reportagem. 

A autora tinha direito a dez por cento do preço de venda das traduções, com trinta por cento de sua parte reservada a Audálio Dantas, mas ela recebia pequenos pagamentos em dólares das editoras estadunidenses, porém, por força do contrato original, não podia autorizar traduções de sua obra, e este direito fora cedido à editora Paulo de Azevedo, uma filial da editora Francisco Alves.


Deixando a favela para trilhar novos caminhos

Depois da publicação de Quarto de Despejo, Carolina mudou-se para Santana, bairro de classe média, na zona norte de São Paulo. Em 1963, publicou, por conta própria, o romance, Pedaços de Fome e o livro Provérbios.

Posteriormente, em 1969, a escritora acumulou dinheiro suficiente para se mudar de Santana para Parelheiros, uma região árida da Zona Sul de São Paulo, no pé de uma colina, próxima de casas ricas, com impostos e preços menores.

Parelheiros se caracterizava por fortes contrastes entre ricos e pobres, tendo grandes casarões ao lado de barracos, que, via de regra, surgiam em vales, onde o ar era poluído pelas indústrias da região do Grande ABC.

Embora pobre, Parelheiros era o mais próximo que Carolina poderia chegar do interior de sua infância sem deixar São Paulo e suas escolas públicas, para as quais seus filhos iam de ônibus. 

Passando boa parte de seu tempo sozinha, seus dias corriam através da leitura de jornais, plantando milho e hortaliças, apesar de reclamar que seus esforços de jardinagem rendessem tanto quanto custassem.


Sozinha veio. Sozinha se foi

Sem pretensões de se casar para não ter que ser submissa aos homens, a autora manteve diversos relacionamentos afetivos ao longo da vida, tendo sido pedida em casamento por alguns namorados, mas nunca aceitou. 

Suas três gravidezes não foram planejadas, e foram frutos de relacionamentos diferentes. Seu primeiro filho era fruto de seu namoro com um marinheiro português, que era muito ciumento e a abandonou grávida. O segundo filho é oriundo de seu relacionamento com um comerciante espanhol, com quem ela terminou o relacionamento por conta das traições dele. Sua terceira filha foi fruto de seu namoro com um empresário brasileiro, cujo término se deu devido às agressões e humilhações que sofria.

Porém, os três filhos nasceram de parto normal, na cidade de São Paulo. As crianças desde cedo se apegaram aos livros por influência da mãe, e todos frequentaram escolas públicas. Carolina registrou e criou seus filhos sozinha, sendo o que conhecemos hoje como, mãe solo.

Para sustentá-los, além de escrever e vender livros, fazia coleta de materiais recicláveis, realizava faxinas, lavava roupas para fora e dava aulas em casa, de alfabetização.

A filha de Carolina, Vera Eunice, tornou-se professora e contou em entrevista que sua mãe aspirava a se tornar cantora e atriz, além de ser escritora.

Carolina Maria de Jesus morreu aos 62 anos em seu quarto, em Parelheiros, na Zona Sul de São Paulo, no dia 13 de fevereiro de 1977, vítima de uma crise de insuficiência respiratória, devido à asma, doença que carregava desde seu nascimento.


Legado pós-morte

No mesmo ano em que morrera foi publicada a obra Diário de Bitita, com recordações da infância e juventude de Carolina. Em 1982, publicou-se Um Brasil para Brasileiros. Em 1996, Meu Estranho Diário e Antologia Pessoal. 

Anos depois, já em 2014, as pesquisadoras Raffaella Fernandez e Maria Nilda de Carvalho Motta organizaram a coletânea Onde Estaes Felicidade, que trouxe textos originais da autora e sete ensaios sobre sua obra e, em 2018, lançaram Meu sonho é escrever – Contos inéditos e outros escritos, com narrativas da autora.

A pesquisadora Raffaella Fernandez organizou o material inédito deixado por Carolina de Jesus em 58 cadernos que somam 5 000 páginas de textos: são sete romances, sessenta textos curtos e cem poemas, além de quatro peças de teatro e de doze letras para marchas de carnaval.

Dos livros escritos acerca da autora, se destacaram, sendo eles; Cinderela negra: a saga de Carolina Maria de Jesus (1994), de José Carlos Meihy e Robert Levine; Muito Bem, Carolina!

A Biografia de Carolina Maria de Jesus (2007), de Eliana Moura de Castro e Marília Novais de Mata Machado; Carolina Maria de Jesus – Uma Escritora Improvável (2009), de Joel Rufino dos Santos; A Vida Escrita de Carolina Maria de Jesus, de Elzira Divina Perpétua; e Carolina: uma biografia (2018) de Tom Farias), também estão na lista de obras póstumas.

No mesmo ano de 2014, como resultado do Projeto Vida por Escrito – Organização, classificação e preparação do inventário do arquivo de Carolina Maria de Jesus, contemplado com o Prêmio Funarte de Arte Negra, foi lançado o Portal Biobibliográfico de Carolina Maria de Jesus e, em 2015, foi lançado o livro Vida por Escrito – Guia do Acervo de Carolina Maria de Jesus, organizado por Sergio Barcellos. 

O projeto mapeou todo o material da escritora, que passou a ser custodiado por diversas instituições, dentre elas: Biblioteca Nacional, Instituto Moreira Salles, Museu Afro Brasil, Arquivo Público Municipal de Sacramento e Acervo de Escritores Mineiros (UFMG).

Ainda hoje, Carolina é madrinha de grupos que lutam pela democratização do ensino, dá nome a cursinhos pré-vestibulares comunitários, a escolas, bibliotecas públicas, a projetos de escolarização de jovens e adultos e a centros acadêmicos em universidades em diversos estados pelo país. Seu nome mobiliza articulações de luta pelo direito à moradia e iniciativas de bem-viver dentro de favelas e comunidades. Além de batizar coletivos feministas e grupos de mulheres. 

Sem dúvidas, ela foi uma das mulheres negras que mais inspiram outras mulheres em todo o mundo e segue sendo lendária e protagonista de muitas histórias.

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