Como ser um pai mais presente?

Como ser um pai mais presente?

12 minutos de leitura

Quando se fala da realidade da paternidade no Brasil, muito se diz da ausência paterna. As mulheres têm reclamado e, com razão, da sobrecarga no cuidado com as crianças. Para muitas, além da rotina de trabalho, também fica designado a elas o dar afeto, o amor, cuidar da saúde dos filhos, da alimentação, da educação. Onde estão os pais nesse momento?

Para compreendermos não apenas o cenário paterno no Brasil, mas para entendermos como os pais podem colaborar mais com a criação dos filhos, convidamos Humberto Baltar, idealizador do Coletivo Pais Pretos, que concedeu uma entrevista para nós. E por que convidamos ele?

Porque o Coletivo faz um movimento contrário ao machismo estrutural e, ao mesmo tempo, realiza um resgate ancestral do papel do pai na família. Humberto falou de várias questões em relação à paternidade, mas também do racismo, da realidade do preto no Brasil e, claro, como ser um pai mais presente.

Somos suspeitos para falar, mas a leitura está deliciosa e engrandecedora.

Depois deixe nos comentários o que você achou.

Quando iniciamos a conversa com Humberto, já na primeira questão ele nos trouxe um cenário que pouco ainda se discute no Brasil:

Por que pais são ausentes? 

Sou educador já há 20 anos e professor de inglês. Mas, eu percebi na educação pública que o trabalho do professor, principalmente no ensino público, não é sobre aula de inglês, mas sobre educação mesmo. Até porque no Brasil a gente tem várias lacunas. Por exemplo, na questão racial, a gente tem lacunas na questão sócio afetiva dos alunos. Muitos deles não têm os pais presentes. Meu público mora na comunidade da Cidade de Deus, aqui no Rio de Janeiro, onde é uma região conflagrada pelo tráfico. Então eu tenho muitos alunos cujo pai ou foi preso ou foi morto ou, pior né, envolvido na criminalidade e não pode participar ativamente da vida civil dessa criança. Então, não pode comparecer em reuniões de escola e a gente, obviamente, não tem como dar conta disso, dessa ausência. E aí o que a gente procura fazer, através do nosso trabalho, é levar referências de valores de família e também afetivas.

Então, um dos trabalhos que você realiza, como educador, é justamente o do paternar?

Isso casa completamente com tudo que eu aprendi com a cultura africana de Burkina Faso porque esse povo ensina que o paternar não é exclusivo para os nossos filhos biológicos. Essa tônica do meu trabalho dialoga muito com o trabalho do Coletivo que é expandir a ideia de parentalidade ativa, afetiva e efetiva na concepção africana. 

A nossa ideia aqui do Ocidente, do patriarcado, é muito limitada porque coloca o homem naquele lugar de provedor, ou seja, aquele que deve comprar as roupas, a comida da criança, mas essa parte do cuidar, essa parte do afeto essa parte do zelo, do carinho, da troca é toda direcionada para a mãe. Então, socialmente o cuidar é da mãe ou sentir é da mãe. Tanto é que você vê hoje nas redes sociais um simples vídeo de um pai penteando o cabelo da filha viraliza. 

Um parêntese com relação a essa coisa do cuidado porque a gente trabalha muito com a ideia da primeira infância, inclusive o Coletivo Pais Pretos Presentes faz parte da Rede Nacional de Primeira Infância. É um fato hoje, científico e comprovado, que a primeira infância é um momento em que a criança mais precisa da presença paterna porque naquele momento ela está formando a identidade dela. Então, o que acontece é que nos primeiros meses o bebê nem enxerga direito, então como é que seria essa relação com o pai se ela mal enxerga? Hoje, a gente sabe que essa relação se dá principalmente através de 3 coisas: o toque, que é sentir o calorzinho ali do pai; o tom da voz, que é importantíssimo também já que o tom transmite emoções e permite essa cumplicidade e também o cheiro, que tem um papel fundamental nas relações.

Por que eu estou falando sobre isso? Porque é justamente a área da proximidade que é totalmente minada por essa ideia da paternidade como provedora porque o pai que é provedor ele não cuida, não desenvolve essa proximidade e sem ela o bebê não sente o cheiro desse pai, não ouve o tom de voz e muito menos vai ter esse toque, esse afago, essa proximidade do peito desse pai.

E, olha que interessante, para você ser homem no Ocidente você tem que ter 3 coisas fundamentais sem as quais você não é lido como homem.  A primeira é essa que eu acabei de falar que é ser provedor. E isso, neste momento está altamente minado pela questão da crise que a gente está atravessando econômica no país. Você tem mais de quatorze milhões de desempregados, ou seja, esse homem está em crise.  Se o entendimento de provisão fosse maior, por exemplo, mais afetivamente, esse homem poderia estar desempregado, mas estar ali cuidando do filho, dando o banho, fazendo toda essa parte sócio afetiva e socioemocional da criança enquanto a companheira esposa ou seja lá quem for providenciasse a renda para casa, mas, ele perde a oportunidade de vivenciar esse vínculo que é tão importante para as crianças. Hoje já se fala até mesmo na dificuldade sócio emocional de quem não tem esse convívio paterno. Por exemplo, na área do trabalho você não tem aquela desenvoltura porque você não teve esse convívio sócio afetivo com a figura do masculino.

Além disso, você insere a ideia do cuidado de uma forma super caricata. Por exemplo, socialmente o que que é esperado do pai nesse papel do cuidar? Se for menino ensinar a jogar bola, se for menina é ensinar andar de bicicleta. 

Outro aprendizado que eu tive quando eu estudei o livro O espírito da Intimidade, em que traz como o povo da atual Burkina Faso enxerga a ideia do paternar. Eu fiquei muito surpreso de ver, por exemplo, a ideia de que o homem fica com a criança enquanto a mulher vai buscar água. Aquele povo não tem essa ideia de que o cuidado é da mãe, o bebê é da mãe, o afeto é da mãe. Outra coisa que me surpreendeu também é como a criança é enxergada como um ser integral e cabe a gente entender como essa criança funciona para aprender a lidar com ela. Aqui no Ocidente a ideia é de que crianças chegam zeradas e você que vai preencher essa criança com uma personalidade, com uma preferência profissional, etc.

Outra coisa que um homem tem que ser para ser reconhecido como homem é protetor, mas você tem que proteger a prole, sua companheira e aí você já tem uma visão extremamente heteronormativa. Como é que ele vai proteger agora nesse momento de pandemia? Até mesmo meu trabalho eu poderia dizer que eu sou capaz de proteger? Porque a gente descobre de um dia para o outro que foi demitido. 

Além de ser provedor e protetor você também tem que ser reprodutor. Se você não gera filhos na leitura do Ocidente não é um homem. Tanto que tem até brincadeiras aqui no Rio que o pessoal fala que o homem impotente ou infértil é “meia bomba”. Tem que ser aquele cara que não só arrebenta na cama, que é ótimo no sexo, mas também que deve gerar filhos.

Então, a gente vê que essa ideia de masculinidade está em xeque. Eu não gosto dessa ideia de que a masculinidade é tóxica. O que é tóxico é a visão que se dá do que é ser masculino. A ideia da masculinidade no Ocidente patriarcal é extremamente problemática.

Como surgiu a ideia do Coletivo Pais Pretos Presentes?

No Brasil, nos Estados Unidos e no Ocidente, em geral, ser bem sucedido é você conseguir coisas e querer alcançar, pelos próprios méritos. Quanto menos ajuda você tem maior é o teu mérito.

A filosofia Ubuntu nos ensina que “eu sou porque nós somos”, ou seja, eu sou através do outro. Na cultura africana o valor está no quanto você contribui para a comunidade, o teu valor está no teu impacto social, o que você gera no outro.

Então, em 2018, um dia antes do Dia dos Pais eu estava esperando a minha esposa pra gente tomar café na padaria que a gente mais gosta aqui no bairro e ela chegou e me deu a notícia que eu seria pai. Foi muito louco isso porque eu fiquei super feliz. Mas, aí não demorou muito, tipo 10 minutos depois eu pensei: “eu tô no Brasil, aqui é um país que tem um caso de racismo por semana inclusive com crianças”. E eu fiquei extremamente preocupado porque eu pensei “como vou prepará-lo para essa realidade racial do Brasil?”

Eu já sabia que eu precisava de apoio na educação do meu filho, só que na leitura do Ocidente isso aí significa que você é fraco, que você é frágil, que você é incompetente, que você não dá conta. Enquanto na África é natural precisar do outro. É perfeitamente natural entender quando a gente não dá conta de algo. Eu queria trocar sobre a criação de filhos, sobre essa ideia da masculinidade para entender também o afeto. Como é que funciona? Isso até porque eu tive um pai provedor que dava tudo, dava as compras, o uniforme, os brinquedos, mas não tinha essa coisa de conversar sobre as minhas emoções, conversar sobre os medos, frustrações, afeto, sobre racismo. Como eu não sabia se ia conseguir dar um cheiro no meu filho, um beijo e dizer que amo, essas coisas, isso me deixou extremamente preocupado.

Quando eu soube disso, que eu ia ser pai, eu fui para as redes sociais e perguntei: “quem conhece um pai preto presente para me apresentar?” E essa pergunta viralizou pelo Brasil inteiro. Então, os próprios pais me deram a ideia de fazer um grupo no WhatsApp para falar de paternidade e masculinidade. 

O grupo surgiu no WhatsApp inicialmente com 12 membros apenas. Os pais trouxeram experiências do que que eles fazem, como eles lidam com o racismo na infância, afeto. Quando eu vi isso, pensei: “isso não é um grupo de bate-papo de paternidades definitivamente. Isso aqui é uma rede de apoio paterna”. A gente está acolhendo, fazendo uma escuta ativa com os homens. Em 2018 ninguém falava de redes de apoio para homens.

E aí que aconteceu que o grupo do WhatsApp ficou lotado e a gente fez uma página no Facebook e o grupo, hoje, tem 25 mil pessoas, falantes da língua portuguesa e inglesa. Gente de Angola, Moçambique e outros vários lugares.  Como a gente estava nesse processo de entender as necessidades, acabou surgindo um grupo de estudos também no Telegram e isso chamou muito atenção das mães pretas. 

Então, surgiu um segundo grupo que foi o Mães e Pais Pretos Presentes que eram abertos para as mulheres trocarem com os pais sobre a criação dos filhos, sobre família. Só que as mulheres perceberam logo que tem muitas áreas que são de exclusividade delas. Por exemplo, uma mulher vai falar sobre violência obstétrica e tem muitos homens que não vão nem reconhecer a violência obstétrica como violência. Então, elas concluíram que elas precisavam ter um espaço exclusivo delas e assim nasceu esse grupo separado. É um espaço exclusivo das mulheres onde elas conseguem se aquilombar, se acolher, se fortalecer e promover inclusive os próprios empreendimentos profissionais.

Então, já existia um grupo de pais pretos, um grupo para mães e pais pretas trocarem entre si e aí nasceu o grupo exclusivo para mães pretas. 

E há um quarto grupo no WhatsApp, que são das mães e pais de pretos, que são as pessoas que têm filhos pretos mas não são pretas.

E nesse embalo entraram também os educadores, muitos sociólogos, professores de Filosofia e aí foi incrível, porque criou-se um movimento de inclusão das pessoas não pretas. Tivemos uma campanha publicitária em parceria com o próprio Facebook, em 2019.

Através de todas as redes sociais, o movimento cresceu de uma maneira que a gente se filiou à Rede Nacional da Primeira Infância para lutar pelos direitos das infâncias pretas no país. A gente fala sobre paternidade, infância. 

Esse ano a gente esteve no 11º Seminário Internacional Pais & Filhos em que teve um diálogo com a minha família sobre a concepção ancestral africana de família.  Outra coisa que também acho que foi fundamental para o Coletivo foi se estabelecer definitivamente como maior coletivo preto no Brasil. Recebi um convite do Papo de Homem, que está há 13 anos discutindo masculinidades no país. Nesse ano, o evento pai, que é um evento anual que eles fazem, fui convidado para ser um co-produtor e convidar pessoas pretas, que vai ser nos dias 2 e 3 de agosto.  Então a gente está em várias frentes além, é claro, do acolhimento às famílias pretas que é o nosso trabalho principal.

Quando entramos em contato com o Coletivo, um dos pontos que nos falaram é sobre a importância da representatividade. Detalhe para nós esse olhar, por favor.

A gente tem uma conta no Instagram com 47000 seguidores onde a gente coloca, semanalmente, casais pretos felizes, pais pretos que são ativos, afetivos. Ali tem mulheres pretas bem-sucedidas, crianças pretas que estão exercendo a sua infância e aí para minha surpresa logo no início do Instagram quando a gente não tinha nem 1000 seguidores a gente recebia várias mensagens e ainda recebe agradecendo pela existência desse perfil. E eu fiquei pensando, meu Deus, mas são só fotos de famílias. Mas, aí eu lembro daquela fala do Frantz Fanon no livro Pele Negra, Máscaras Brancas quando ele coloca como é avassaladora para uma pessoa preta se ver simbolicamente menor que as pessoas brancas. A infância preta não tem lugar na mídia brasileira. No meio midiático isso é muito sério porque quando uma empresa não coloca pessoas pretas nas suas campanhas ela está mexendo no imaginário social de onde é o lugar da pessoa preta e a gente tem essa dificuldade de se ver nas campanhas publicitárias, nas mídias sociais.

O autocuidado masculino é uma ideia que a Incenso Fênix apoia e incentiva. Como o homem pode se cuidar mais?

Eu acho que é uma outra vergonha brasileira e vem dessa masculinidade esquisita que a gente tem no Brasil. Quando você olha para a sociedade africana, pai e mãe não têm papéis rígidos de gênero.  Então, o conceito do cuidado e do autocuidado é justamente essa ideia de que paternar é acolher. No Coletivo você vai exercer esse patermar através desse afeto que você vai dar às pessoas que estão à sua volta, pela concepção africana essa ideia de paternar não é exclusivamente para o teu filho biológico. Lembro de um caso recente do nosso Coletivo que é o árbitro do Sul, Márcio Chagas, que recentemente ficou viúvo porque perdeu a esposa e ele deu essa notícia no Coletivo. O Coletivo parou para acolher esse homem eu achei aquilo lindo, vários pais falando com ele, dizendo que ele não está sozinho e que ele pode contar com a gente para apoiá-lo na criação dos dois filhos.

Parte desse autocuidado é o contato maior com ervas e o contato não só através de chás, mas principalmente através da vaporização que é um conhecimento que no Brasil pouquíssimas pessoas têm de colocar ervas em água quente e receber aquele vapor não só através da respiração, mas dos próprios poros. Mulheres pretas fazem isso há milênios no continente africano e você fala em vaporização aqui e as pessoas te olham como se você fosse uma curandeira. Em forma de banhos as ervas também são indicadas para acalmar, para cicatrizar feridas.

Outra tecnologia ancestral que é altamente menosprezada ainda no campo das plantas são os óleos essenciais. Hoje se sabe que Alecrim é uma ferramenta poderosíssima. Você pinga uma gota de óleo concentrado de alecrim na palma da mão e passa uma na outra e isso tem um efeito cerebral praticamente instantâneo. Você relaxa na hora. 

Tem o Mudra, que são as posições dos dedos que ativam estados mentais, alguns deles instantaneamente. 

Outra tecnologia ancestral que poucas pessoas se dão conta é o uso da respiração. O modo como você respira pode relaxar, pode ajudar a concentrar. Então tudo isso são conhecimentos ancestrais de África que estão relacionados ao autocuidado para você adotar. A maioria deles não precisa nem de um real.

E a própria alimentação. Há séculos na socialidade africana existe um tipo de alimentação que dialoga muito com o crudivorismo, que deixa os alimentos serem processados pela própria natureza.

Qualquer pessoa que se proponha a aprender vai adquirir esses conhecimentos. Mas, aí, a gente bate nesse obstáculo que estávamos conversando aqui que é o racismo. Enxergar o continente africano como produtor e detentor de conhecimento, filosofia e sabedoria ainda é um desafio pra muitos.

Que mensagem final você pode deixar para as pessoas?

Eu sou porque nós somos. Essa é a frase que resume a filosofia Ubuntu e a atuação do coletivo.

Para quem quiser conhecer o Coletivo ou fazer parte, acesse os links que estão abaixo:

Página do Facebook: Pais Pretos Presentes
Twitter: @paispretos
Canal no YouTube: Pais Pretos Presentes
Instagram @paispretos
Clubhouse: @pais.pretos
Site: Podcast Pais Pretos
Spotify: Podcast Pais Pretos

Incensos naturais e
artesanais desde 1990

Acesse nossa loja online para conhecer
nossos produtos naturais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Compartilhe este post com mais pessoas!

Compartilhar no whatsapp
WhatsApp
Compartilhar no facebook
Facebook
Compartilhar no email
Email
Compartilhar no pinterest
Pinterest